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A plasticidade do ex-F1 Streiff

ECOA

26/11/2019 04h00

Após passar pelo raio X do aeroporto do Galeão, notei que um cadeirante estava com dificuldades de se comunicar com os fiscais que faziam a inspeção manual no seu corpo. Dava explicações em inglês e parecia não estar sendo compreendido. Olhou-me e perguntou se eu poderia ajudar na tradução. Acabamos engatando na conversa e descobri que se tratava de Philippe Streiff, ex-piloto francês de Fórmula 1, que sofrera um grave acidente em 1989, no autódromo de Jacarépagua. Durante um teste, Philippe perdeu o controle do carro por causa da quebra da suspensão traseira e atravessou a cerca da pista de cabeça para baixo. Como consequência, teve uma fratura na coluna que gerou a tetraplegia. O objetivo de sua passagem pelo Rio de Janeiro era visitar a Clínica São Vicente, hospital que o socorrera 30 anos atrás.

Fiquei muito interessado em conhecer mais sobre sua história, especialmente pelo fato de eu mesmo ter me aproximado bastante do universo da Fórmula 1 após ter participado de um projeto da Rede Globo que envolvia tecnologia, acessibilidade e automobilismo. Resumindo, tive a oportunidade de pilotar um carro de corrida por meio de um sistema que lia a atividade elétrica do meu cérebro e permitia que eu controlasse o carro por meio do pensamento.

Antes de nos despedirmos no aeroporto, trocamos telefones e Philippe me mostrou um vídeo em que ele está dirigindo seu atual carro pelas ruas de Paris, usando um joystick. No domingo, coincidentemente dia do Grande Prêmio do Brasil, liguei para ele e descobri fatos que merecem ser divulgados. Por volta do ano 2002, Philippe teve um encontro com o então presidente francês, Jacques Chirac, em que relatou a inviabilidade de custear sozinho a infraestrutura de assistentes e serviços médicos da qual dependia. Chirac percebeu a relevância do tema e pediu que Philippe o ajudasse na elaboração de uma lei que endereçasse o assunto.

O resultado foi a criação da "Loi Handicap", também conhecida como "Loi Chirac". Publicada em fevereiro de 2005, vem permitindo que pessoas idosas ou com impedimentos de diversas naturezas usufruam de um subsídio estatal que visa criar condições para que elas tenham uma vida autônoma. Atualmente, Philippe trabalha no Ministério responsável pelas questões de mobilidade e trânsito urbano na França com a missão de permitir que outras pessoas com deficiência física consigam adquirir habilitação para dirigirem, assim como ele, carros adaptados e usufruírem de maior independência.

Vários aspectos chamam a atenção na história de Philippe. Em primeiro lugar, seu generoso gesto de gratidão à equipe que salvou sua vida, ao visitar a Clínica São Vicente 30 anos depois do acidente. Em segundo lugar, o enorme impacto social que sua atitude de advocacy tem gerado para a população da França. E, na minha opinião o mais emblemático, sua plasticidade, sua capacidade de se reinventar e de seguir em frente canalizando sua energia para as novas oportunidades que surgiram em seu percurso.

Sobre o Autor

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

Sobre o Blog

A garantia do direito à educação para todos é o ponto de partida para reflexões sobre equidade, diversidade humana e construção de uma sociedade inclusiva.

Rodrigo Hübner Mendes