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Voe em paz, pai

ECOA

04/02/2020 04h00

Na última semana, meu pai José partiu após um longo período de hospitalização. Costumo ser bastante discreto quanto à minha vida pessoal, mas nesse caso prefiro levar minha homenagem a ele para todos os cantos. Segue minha carta de despedida:

Querido pai,

Gostaria de ter a capacidade de lembrar de tudo que você nos ensinou ao longo da vida para poder agradecer cada aprendizado nesse momento. Muito do que sou veio de você. 

Me lembro do dia em que começou a me ensinar como jogar bola. Não chutar de bico, organizar o jogo no meio do campo, mirar na forquilha para que meus gols fossem belos. O futebol se tornou minha grande paixão de garoto. Com ele, aprendi a confiar em mim.

Me lembro quando me ensinou a rezar, dizendo que eu poderia conversar com Deus sempre que me sentisse frágil. Isso me ajudou muito nos momentos de angústia.

Me lembro das inúmeras vezes em que você falou sobre a importância de se ter paciência diante do ciclo natural regido pelo tempo. "Ser paciente, saber esperar, é sinal de sabedoria", você dizia. Nessa virtude, você era nosso mestre.

Outro ensinamento que me marcou muito desde a infância foi sobre a inteligência que reside na humildade. "Nunca seja metido, filho. Quem canta de galo o tempo todo, um dia cai do cavalo. Se perde na arrogância". Não consigo me lembrar de uma cena em que você tenha se colocado como superior a alguém. Desprezado quem quer que seja. 

Aprendi também com você o poder transformador do humor, da brincadeira, da descontração. Quantas vezes choramos de rir ouvindo suas histórias. Leveza é um mantra que escolhi perseguir na vida, em parte graças a você. 

E para concluir essa modesta amostra do vasto acervo com que você nos presenteou, não posso deixar de mencionar aquilo que me disse no dia mais difícil da minha vida. Eu estava no hospital, sem saber se iria sobreviver, ansioso para que você chegasse e me acolhesse. Eu estava com muita dificuldade para respirar e com muito medo do que viria pela frente. Quando você chegou, segurou no meu braço e me disse olhando nos olhos: "Filho, fique tranquilo. Faça sua parte, a gente vai fazer a nossa e a gente vai vencer essa parada. Tudo vai ficar bem!"

Aquilo passou a ser meu lema. Essas simples palavras me salvaram. Entendi na hora que fazer minha parte significava não cair no limbo da auto piedade. Não perder um segundo com o vazio da queixa, na busca por culpados. Fazer minha parte significava assumir minha responsabilidade pelo meu futuro e canalizar toda minha energia para seguir em frente e remar com todas as minhas forças diante daquele maremoto que surgiu na nossa frente. E quando a tormenta passasse, abraçar e valorizar cada oportunidade que a vida oferecesse. 

Uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos anos foi ter tido tempo para ficar com você. Estou ciente de que nada vai substituir o prazer da sua presença, suas bochechas macias, a força das suas mãos e a espontaneidade da sua risada. Mas vou me esforçar para converter a falta em fortaleza. 

O seu corpo se vai hoje, mas sua essência permanece, imortal dentro dos nossos peitos. No meu, no da Fabi, no do Con, no da mamãe e em todos que te conheceram. Seguirei na busca por atender seu pedido. Na busca por fazer a minha parte, da melhor maneira que eu puder. Para que quando eu parta, tenha a chance de sentir que fiz por merecer tudo que recebi da vida, fiz por merecer ter sido seu filho. Te amarei incondicionalmente em carne, em espírito, no eterno.

Obrigado, pai. Voe em paz…

Sobre o Autor

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

Sobre o Blog

A garantia do direito à educação para todos é o ponto de partida para reflexões sobre equidade, diversidade humana e construção de uma sociedade inclusiva.

Rodrigo Hübner Mendes